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Mancini Psiquiatria e Psicologia
QUAIS OS EFEITOS DO ESTRESSE DESENVOLVIMENTO DO CÉREBRO?
Por Dra Cristiane Beckert O desenvolvimento do cérebro é um processo profundamente dependente da experiência, no qual a arquitetura neural é esculpida pela qualidade dos estímulos ambientais e dos cuidados primários. Quando o ambiente de desenvolvimento é marcado pela negligência ou pela instabilidade emocional, o cérebro é submetido ao que a literatura científica, notadamente nos trabalhos de Shonkoff et al. (2012), denomina estresse tóxico. Diferente do estresse positivo ou tolerável, o estresse tóxico decorre da ativação prolongada e severa dos sistemas de resposta ao estresse na ausência de suporte mediador por parte dos cuidadores, o que resulta em uma cascata …
SUPERDOTAÇÃO E DESREGULAÇÃO EMOCIONAL
Por Dra Cristiane Beckert A relação entre a superdotação e a desregulação emocional é um dos campos mais férteis e complexos da neuropsicologia contemporânea, desafiando o mito de que um quociente de inteligência elevado seria um fator puramente protetivo para a saúde mental. Na realidade, a literatura científica demonstra que a alta capacidade cognitiva frequentemente caminha lado a lado com uma intensidade emocional exacerbada, fenômeno que pode ser compreendido através de modelos teóricos que explicam por que o “sentir” é tão amplificado quanto o “pensar” nesses indivíduos. No caso da superdotação, a supersensibilidade emocional manifesta-se como uma capacidade de …
Ansiedade Generalizada: como lidar?
O Transtorno de Ansiedade Generalizada (TAG) é caracterizado por uma preocupação persistente e excessiva em relação a diversos aspectos da vida cotidiana, como trabalho, saúde, finanças ou segurança das pessoas próximas. Essa preocupação costuma ser difícil de controlar e vem acompanhada de sintomas como inquietação, tensão muscular, fadiga, dificuldade de concentração, irritabilidade e alterações no sono. Ao contrário da ansiedade considerada “normal”, que surge em situações específicas e tende a diminuir quando o evento passa, e de outros transtornos de ansiedade, como a Ansiedade Social, na qual a preocupação está associada a forma como será visto por outras pessoas, ou …
Por que o cérebro prefere lembrar de coisas ruins?
Você já percebeu como é mais fácil lembrar de uma crítica do que de um elogio? Ou como uma experiência negativa pode permanecer viva na memória por anos, enquanto momentos felizes parecem se dissolver no tempo? Isso não é pessimismo — é neurobiologia. O viés da negatividade A Neuropsicologia explica que o cérebro humano tem um viés da negatividade, ou seja, uma tendência natural a dar mais peso e atenção aos eventos desagradáveis. Esse mecanismo tem origem evolutiva: em um mundo repleto de perigos, lembrar do que foi ruim significava sobreviver. O cérebro não está tentando te fazer sofrer — …
CURVA U: MODELO QUE EXPLICA A ADAPTAÇÃO EM UM LUGAR NOVO
A curva U é um modelo psicológico que descreve o processo de adaptação de uma pessoa ao mudar de ambiente cultural ou geográfico, por exemplo, quando alguém se muda de país, cidade ou região diferente. Esse conceito defende a ideia de que a experiência de mudança segue um padrão emocional semelhante ao formato da letra U. No início, ocorre a fase da lua de mel, marcada por entusiasmo e curiosidade. Tudo parece novo e interessante: a pessoa sente-se motivada a explorar o ambiente, experimentar comidas diferentes, aprender a língua local e fazer novos amigos. Porém, essa fase tende a ser …
Controle sua mente!
Seja no trabalho, em casa, sozinho ou acompanhado, a nossa mente está constantemente nos contando histórias. Se pararmos para ouvi-la, é muito provável notarmos que ela está fazendo alguma avaliação, comparação, interpretação, previsão, relembrando algo ou atribuindo significado. Passamos a vida imersos nessas histórias, e, assim como água para os peixes, é fácil esquecermos que elas estão presentes. Isso não é um problema necessariamente; em muitos contextos, podemos tomar ações adequadas quase de maneira automática a partir de pensamentos que estavam presentes mesmo sem ter clareza deles. Por exemplo, para dirigir ou atravessar ruas movimentadas, estar sob o controle de …
Não sofra em dobro!
“Quando o nosso sofrimento não pode ser explicado, sofremos duplamente: pela dor que experimentamos e pela nossa incapacidade de lhe dar sentido.” Essa frase, parafraseando a autora Eva Illouz, socióloga que investiga a forma como cultura, sistema econômico e sentimentos interagem, descreve uma consequência de determinada maneira de se relacionar com pensamentos e emoções. Esse “duplo sofrimento”, na perspectiva da Terapia de Aceitação e Compromisso (ACT), costuma ocorrer quando nos relacionamos com nossos pensamentos e sentimentos a partir da ideia de que sua presença indica que há algo de errado conosco, ou quando nos faltam recursos para compreender o sentido …
Como parar com o antidepressivo?
A disseminação do uso de antidepressivos se deve em grande parte ao desenvolvimento dos inibidores seletivos da recaptação de serotonina (ISRS) no final da década de 80. Essa nova classe medicamentosa, com menos efeitos colaterais e menor risco de toxicidade, permitiu a prescrição mais segura de antidepressivos. A euforia foi tanta que os anos 90 foram batizados por George H. W. Bush como a “década do cérebro”. Desde então, estes novos antidepressivos têm sido umas das principais ferramentas da psiquiatria moderna, ajudando milhões de pessoas com depressão, ansiedade e até mesmo outros transtornos. Porém, esquecemos que não basta saber quando …
“O Erro de Descartes”: Tomada de Decisões
No livro “O Erro de Descartes”, o neurocientista António Damásio propõe uma visão transformadora sobre como o ser humano pensa e toma decisões. Ele questiona o famoso princípio cartesiano “Penso, logo existo”, mostrando que a mente não funciona separada do corpo, nem o raciocínio funciona isolado da emoção. Pelo contrário: para decidir, precisamos sentir. Damásio demonstra, a partir de estudos clínicos com pacientes que sofreram lesões em áreas específicas do cérebro, que emoção e cognição são inseparáveis. Indivíduos com inteligência preservada, memória intacta e linguagem funcional, mas com prejuízos nas regiões responsáveis pelas emoções, eram incapazes de tomar decisões simples …

