O domínio das emoções
A Terapia de Aceitação e Compromisso (ACT) é uma abordagem cognitivo-comportamental que tem como objetivo, para além da melhora dos sintomas associados à queixa, o desenvolvimento de Flexibilidade Psicológica. Flexibilidade Psicológica é um modelo de saúde mental que pode ser compreendido como um conjunto de habilidades Mindfulness (ter consciência, abertura e perspectiva das experiências internas, como os pensamentos e sentimentos) e Engajamento (clareza dos próprios valores e a capacidade de escolher agir alinhado a eles).
Mesmo quando não estamos sofrendo com algum transtorno, sentimentos, sensações e pensamentos indesejados fazem parte de muitos contextos da vida, e, se temos pouca flexibilidade para lidar com eles, é possível que fiquemos emaranhados neles ou passemos a decidir como viver em função de evitá-los, em vez de fazer o que gostaríamos.
No cotidiano, isso acontece de maneiras muito mais frequentes do que costumamos perceber. Imagine alguém que precisa fazer uma apresentação importante no trabalho e, ao notar a ansiedade, conclui que não está preparado ou que “vai dar tudo errado”. Se essa pessoa estiver muito fundida aos próprios pensamentos e tentar eliminar a ansiedade antes de agir, é possível que adie a apresentação, fale menos do que gostaria ou até perca oportunidades profissionais. Já uma postura mais flexível permite reconhecer a presença da ansiedade como uma resposta natural diante de algo importante, abrir espaço para essa experiência e, ainda assim, direcionar o comportamento para aquilo que importa: comunicar suas ideias, contribuir com a equipe e crescer profissionalmente.
Outro exemplo comum acontece nos relacionamentos. Após um conflito com alguém importante, podem surgir pensamentos como “não adianta conversar” ou sentimentos intensos de raiva e mágoa. Quando esses eventos internos passam a determinar nossas ações, é mais provável que nos afastemos, respondamos impulsivamente ou mantenhamos o silêncio por orgulho. A flexibilidade psicológica favorece uma pausa antes da reação automática, possibilitando reconhecer o que está sendo sentido e escolher uma resposta mais coerente com valores como respeito, cuidado ou honestidade.
Também é frequente que pensamentos autocríticos interfiram em projetos pessoais. Alguém que deseja começar uma atividade física pode pensar “eu nunca consigo manter uma rotina” ou “não sou disciplinado”. Se esses pensamentos forem tratados como verdades absolutas, a tendência é desistir antes mesmo de tentar. Com maior flexibilidade psicológica, esses pensamentos deixam de ser obstáculos que precisam desaparecer para que a ação aconteça. Eles podem estar presentes enquanto a pessoa dá pequenos passos consistentes na direção de uma vida mais saudável.
Nesse sentido, desenvolver flexibilidade psicológica não significa aprender a controlar pensamentos e sentimentos ou cultivar uma atitude permanentemente positiva. Significa ampliar a capacidade de permanecer em contato com a experiência presente, mesmo quando ela é difícil, e continuar escolhendo ações que aproximem a pessoa da vida que deseja construir.

