Fusão cognitiva
Quase como o fluxo de um rio, nossas mentes estão constantemente produzindo pensamentos, e, na maior parte do tempo, não escolhemos quais surgem. Eles ocorrem em coerência com o contexto, com os estados do corpo e com aquilo que foi aprendido ao longo da nossa história de vida. Por si só, isso não é problemático; contudo, pode se tornar um problema dependendo da maneira como nos relacionamos com esses pensamentos e do impacto que exercem sobre nós.
Independentemente da conotação, os pensamentos podem ter uma influência negativa quando estamos fusionados a eles. Estar fusionado a um pensamento significa ser tomado de tal forma pelo seu conteúdo que perdemos a capacidade de nos diferenciar dele, passando a enxergar a realidade através dessa lente. Geralmente, isso resulta em sofrimento, seja por limitar nossas possibilidades de ação, seja por nos colocar em conflito com a nossa própria subjetividade.
Por exemplo, alguém que sofreu um assalto enquanto andava na rua pode, posteriormente, ao se arrumar para sair de casa, experienciar o pensamento de que poderá ser assaltado novamente. Esse pensamento, em si, pode ser compreendido como uma tentativa do organismo de antecipar riscos, estando fundamentado em uma vivência real. No entanto, a depender do grau de apego a esse conteúdo, a pessoa pode evitar sair de casa, alterar drasticamente sua rotina ou permanecer em constante estado de alerta.
Mesmo pensamentos com conotação positiva podem ter efeitos semelhantes. Alguém com histórico de reconhecimento intelectual, que valoriza agir com gentileza nas relações, pode, ao ser contrariado por um colega, ter o pensamento “eu sei do que estou falando”. Ao se fusionar com esse conteúdo, pode reagir de forma ríspida ou irônica, desconsiderar o ponto de vista do outro ou se fechar à possibilidade de rever suas próprias ideias.
Em ambos os casos, o conteúdo do pensamento pode até ser verdadeiro; ainda assim, quando tomado de forma rígida e literal, pode influenciar negativamente o comportamento e o estado emocional.
Estar emaranhado com o conteúdo mental é um processo comum, humano e, em muitos contextos, até útil. No entanto, quando determinados pensamentos passam a restringir a forma como vivemos, torna-se importante desenvolver uma relação mais flexível com eles. Para isso a Terapia de Aceitação e Compromisso (ACT), trabalha-se a habilidade chamada de desfusão cognitiva. Trata-se de notar a presença dos pensamentos no momento em que surgem, com maior perspectiva e distanciamento, possibilitando escolher entre segui-los ou permitir que simplesmente passem, como parte do fluxo contínuo do pensar.

