Vença a AUTOSSABOTAGEM
Você já ouviu ou disse a frase “eu me saboto”. É uma frase dita e pensada com uma certa regularidade, e que indica o reconhecimento de um comportamento que é prejudicial de alguma maneira. Mas como aprendemos e mantemos comportamentos que podem nos fazer mal?
Na perspectiva das terapias comportamentais, para compreendermos um comportamento, um elemento fundamental é o conceito de reforço. Reforço pode ser compreendido como uma consequência que ocorre após um comportamento e que aumenta a probabilidade de que esse comportamento volte a ocorrer no futuro.
Há duas categorias de reforço: o reforço positivo, que ocorre quando o comportamento é seguido pela apresentação de um estímulo e, como resultado, aumenta a probabilidade de ocorrência futura desse comportamento. Exemplos podem incluir elogios, atenção e acolhimento, quando esses estímulos funcionam como reforçadores. Já o reforço negativo ocorre quando o comportamento produz a remoção ou redução de um estímulo aversivo, aumentando também a probabilidade de ocorrência futura do comportamento, como no alívio de uma dor ou na evitação de uma situação aversiva.
Quando pensamos em comportamentos habitualmente reconhecidos como autossabotagem, é comum que eles pareçam, à primeira vista, contraditórios: se determinado comportamento nos prejudica, por que continuamos a repeti-lo? A perspectiva comportamental nos ajuda a compreender que um comportamento não precisa ser benéfico a longo prazo para ser mantido. Para compreender sua manutenção, é importante observar as consequências que ele produz, especialmente aquelas que ocorrem de maneira mais imediata.
Por exemplo, uma pessoa pode evitar uma situação que lhe provoca ansiedade. No curto prazo, a esquiva pode produzir uma sensação de alívio, reduzindo o desconforto experimentado naquele momento. Esse alívio pode funcionar como reforço negativo, aumentando a probabilidade de que a pessoa volte a evitar situações semelhantes no futuro. Embora a esquiva possa trazer alívio imediato, ela também pode dificultar, a longo prazo, a realização de atividades importantes, a construção de relações ou o enfrentamento de situações necessárias.
Da mesma maneira, comportamentos que parecem “autossabotadores” podem produzir outras consequências reforçadoras. Procrastinar uma tarefa, por exemplo, pode permitir que a pessoa adie momentaneamente o contato com o tédio, a ansiedade ou o medo de fracassar. Permanecer em uma situação conhecida, mesmo quando ela é insatisfatória, pode reduzir a incerteza associada a uma mudança. Em ambos os casos, o comportamento pode continuar ocorrendo porque produz consequências que, naquele momento, funcionam como reforçadores.
Isso não significa que a pessoa esteja conscientemente escolhendo se prejudicar ou que exista uma intenção de “se sabotar”. Pelo contrário, compreender esses comportamentos a partir do que acontece antes e depois deles permite substituir uma explicação baseada em culpa por uma investigação sobre sua função: o que esse comportamento produz ou evita? O que acontece imediatamente depois dele? E por que essas consequências podem estar contribuindo para sua manutenção?
Assim, falar em “autossabotagem” pode ser um ponto de partida para reconhecer um padrão, mas não necessariamente explica por que ele acontece. A análise comportamental busca ir além do rótulo e compreender as relações entre o comportamento e o ambiente em que ele ocorre. Ao identificar essas relações, torna-se possível pensar em mudanças que não dependam apenas de força de vontade, mas da construção de novas formas de responder às situações e de novas consequências para esses comportamentos.
Em vez de perguntar apenas “por que eu faço isso comigo?”, podemos começar a perguntar: “o que esse comportamento faz por mim, mesmo que também me prejudique?” Essa mudança de pergunta pode abrir espaço para uma compreensão mais cuidadosa do comportamento e para a construção de alternativas mais coerentes com aquilo que a pessoa deseja para sua vida.

