Machismo e Violência
A Psicologia tem um papel fundamental na compreensão das raízes subjetivas e sociais do machismo e do feminicídio, fenômeno extremo da violência de gênero. O feminicídio não é um ato isolado ou fruto apenas de impulsividade individual; ele está inserido em uma estrutura cultural que historicamente naturalizou a desigualdade entre homens e mulheres e legitimou diferentes formas de controle sobre o corpo, a autonomia e a vida feminina.
O machismo pode ser entendido como um sistema de crenças que sustenta a superioridade masculina e reforça papéis rígidos de gênero. Desde a infância, meninos e meninas são socializados de maneiras distintas. Enquanto características como assertividade e dominação tendem a ser reforçadas nos meninos, espera-se das meninas docilidade, cuidado e submissão. Esses padrões internalizados formam esquemas cognitivos que influenciam a maneira como homens e mulheres percebem a si mesmos e os relacionamentos. Quando tais crenças são ameaçadas, por exemplo, diante da autonomia feminina, do término de um relacionamento ou da recusa, alguns homens podem vivenciar intensa sensação de perda de controle, humilhação ou ferida narcísica.
Muitos agressores apresentam dificuldades na regulação emocional, baixa tolerância à frustração, crenças de posse sobre a parceira e padrões de pensamento dicotômicos, como “se não é minha, não será de mais ninguém”. Essas distorções cognitivas podem alimentar comportamentos controladores e violentos. No entanto, é essencial evitar explicações que individualizem excessivamente o problema. A violência de gênero é sustentada por normas sociais que, durante muito tempo, minimizaram agressões domésticas e responsabilizaram as vítimas.
O feminicídio, enquanto categoria jurídica, foi reconhecido no Brasil com a Lei nº 13.104/2015, que o tipifica como circunstância qualificadora do homicídio quando o crime envolve violência doméstica e familiar ou menosprezo à condição de mulher. Esse reconhecimento legal evidencia que a motivação do crime está diretamente ligada à desigualdade de gênero e não apenas a conflitos interpessoais. As consequências psicológicas do machismo e da violência são profundas.
Mulheres expostas a relacionamentos abusivos frequentemente desenvolvem sintomas de ansiedade, depressão, transtorno de estresse pós-traumático, além de sentimentos persistentes de culpa e vergonha. O ciclo da violência, o qual é marcado por tensão crescente, explosão e fase de “lua de mel” , pode reforçar vínculos traumáticos que
dificultam o rompimento darelação. A dependência emocional e, muitas vezes, econômica, também atua como fator de manutenção.
A psicologia contribui tanto na intervenção quanto na prevenção. No atendimento às vítimas, é fundamental oferecer acolhimento sem julgamento, fortalecer a autonomia e trabalhar a reconstrução da autoestima e da rede de apoio. Em relação aos autores de violência, programas de responsabilização e reeducação emocional podem auxiliar na desconstrução de crenças machistas e no desenvolvimento de habilidades de regulação emocional e resolução não violenta de conflitos.
Além do trabalho clínico, a Psicologia Social enfatiza a importância de mudanças estruturais: educação para igualdade de gênero, políticas públicas de proteção, fortalecimento de serviços especializados e campanhas que questionem estereótipos tradicionais. Combater o feminicídio exige atuação integrada entre sistema de justiça, saúde, assistência social e educação.
Refletir sobre esse tópico é reconhecer que a violência de gênero não nasce apenas de indivíduos “violentos”, mas de uma cultura que historicamente legitimou desigualdades. A transformação desse cenário passa pelo questionamento de crenças arraigadas, pela promoção de relações baseadas em respeito e equidade e pela construção de uma sociedade que não tolere nenhuma forma de violência contra a mulher.

