MENTES DISTRAÍDAS
As nossas mentes estão constantemente nos contando coisas, independentemente da situação elas estão lá, produzindo pensamentos, inventando histórias, relembrando o passado ou tentando prever o que ainda nem aconteceu. É um processo contínuo, e é comum não nos darmos conta dele. Assim como os peixes não notam a água onde vivem, nós também temos dificuldade para notar que estamos imersos nos próprios pensamentos. E é justamente por isso que acabamos nos afastando do momento presente, focando mais em nossos pensamentos em vez do que está à nossa frente.
Isso não necessariamente é um problema, mas pode se tornar um quando os pensamentos que surgem e a forma como nos relacionamos com eles dificulta agir de maneira significativa. Por exemplo: imagine que você está numa conversa com alguém que está sendo atencioso e agradável. A troca está leve, mas, de repente, surgem pensamentos como: “Será que essa simpatia é verdadeira?”, “E se estiver falando isso só para me agradar?”, “Talvez tenha uma segunda intenção por trás.” Esses pensamentos de desconfiança aparecem de forma automática, muitas vezes como uma tentativa da mente de proteger.
Quando não voltamos nossa atenção ao presente, tanto ao que está no ambiente quanto ao que a nossa mente está nos dizendo, podemos começar a nos sentir desconfortáveis, responder de maneira fria ou até encerrar a interação antecipadamente. Nesse caso, não é a realidade do momento que guia o comportamento, afinal, a interação estava boa, mas sim as histórias contadas pela mente.
Estar presente não significa “parar de pensar” ou “esvaziar a mente”. Significa ter uma atenção flexível sobre as experiências do aqui e agora, tanto as do ambiente quanto as da própria subjetividade. Podemos retornar ao momento presente de formas simples, trazendo a atenção para o corpo: sentir a respiração, notar o peso do corpo na cadeira, escutar com cuidado a voz de quem fala conosco. Também podemos observar os próprios pensamentos de maneira consciente, fazendo uma pausa e nos perguntando: “O que a minha mente está me dizendo agora?”.
A habilidade de retornar ao momento presente e manter-se nele pode ser difícil inicialmente, e costuma demandar um esforço consciente. A boa notícia é que, com prática adequada, a tendência é que se torne algo fácil e prático de realizar. Um dos objetivos da psicoterapia na abordagem Terapia de Aceitação e Compromisso (ACT) é a promoção de mais atenção flexível no momento presente, visando ampliar a consciência e possibilitar escolhas mais alinhadas com os valores pessoais.

