CASAMENTO: APEGO INSEGURO X APEGO EVITATIVO
Por Dra Cristiane Beckert
A dinâmica conjugal estabelecida entre indivíduos com estilos de apego ansioso e evitativo constitui uma das configurações mais complexas e recorrentes na psicoterapia de casal, frequentemente denominada como a “armadilha ansioso-evitativa”. Sob a ótica da Teoria do Apego e os desdobramentos da neurociência afetiva, esses estilos representam estratégias adaptativas de regulação emocional forjadas a partir dos Modelos Operantes Internos desenvolvidos na ontogênese. No casamento, essa interação manifesta-se através de uma circularidade disfuncional onde os sistemas de apego de ambos são cronicamente ativados, mas de maneiras diametralmente opostas, o que impede a co-regulação necessária para a manutenção da homeostase vincular.
O parceiro com estilo de apego ansioso apresenta uma hiperativação do sistema de busca de proximidade, caracterizada por uma hipervigilância a sinais sutis de rejeição ou abandono. Do ponto de vista neurobiológico, observa-se uma reatividade aumentada da amígdala e uma dificuldade em recrutar mecanismos de controle pré-frontal para mitigar o sofrimento emocional sem a validação externa. Em contrapartida, o indivíduo com apego evitativo utiliza estratégias de desativação, nas quais a vulnerabilidade emocional é suprimida e a autossuficiência é hipervalorizada como um mecanismo de defesa contra a invasividade percebida. Para este último, a intimidade profunda é frequentemente codificada pelo sistema límbico como uma ameaça à integridade do self, disparando comportamentos de distanciamento cognitivo e afetivo que visam restaurar uma segurança defensiva através do isolamento.
No cotidiano do matrimônio, essa assimetria de necessidades de proximidade cria o ciclo patológico do “perseguidor-distanciador”. Quanto mais o parceiro ansioso percebe o distanciamento e intensifica as tentativas de conexão e reasseguramento — muitas vezes através de protestos emocionais ou críticas —, mais o parceiro evitativo sente-se invadido e retira-se para o seu “refúgio” psicológico. Este movimento de retirada atua como um gatilho traumático para o parceiro ansioso, cujos esquemas de abandono são confirmados pela indisponibilidade do outro, gerando um incremento na angústia e na reatividade. Essa escalada mútua não apenas erode a satisfação conjugal, mas compromete a função do relacionamento como uma base segura, transformando o vínculo em uma fonte de estresse crônico em vez de um recurso de regulação.
O impacto prolongado dessa dinâmica no casamento pode levar a um estado de desvitalização afetiva, onde a comunicação torna-se puramente instrumental ou saturada de projeções defensivas. A ausência de sintonização impede a resolução de conflitos de forma colaborativa, uma vez que o indivíduo evitativo tende a minimizar ou evitar o confronto para preservar sua regulação interna, enquanto o ansioso tende a catastrofizar a situação na tentativa de evocar uma resposta emocional do cônjuge. A intervenção clínica, portanto, foca na transição para um apego seguro adquirido, processo que exige a flexibilização das defesas e a construção de uma metacomunicação sobre as necessidades de segurança de cada parte, permitindo que a vulnerabilidade seja expressa e acolhida sem disparar os mecanismos de defesa arcaicos de ambos.

